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Mundo Sustentável

Abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação

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24 mai 2005
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O tempo dirá

“Eu estou 24 horas por dia nesta causa”. Com a voz firme, apesar da saúde frágil, a ministra Marina Silva enumerava no sábado, 21, dados e estatísticas para justificar sua confiança nos resultados do Plano Nacional de Desmatamento, bombardeado de forma implacável pela imprensa nacional e estrangeira logo depois do anúncio do mais novo índice de desmatamento da Amazônia. Entre agosto de 2003 e agosto de 2004, a maior floresta tropical úmida do mundo perdeu uma área verde equivalente ao estado de Alagoas, ou, como preferem dizer os europeus, superior ao território da Bélgica. O primeiro índice de desmatamento registrado durante o governo Lula é o segundo maior da história: 26.130 quilômetros quadrados de florestas destruídos, inferior apenas ao resultado de 1995, ocorrido durante o primeiro governo Fernando Henrique, quando 29.059 quilômetros quadrados de área verde desapareceram.

“É preciso mais tempo para julgar os resultados do plano de desmatamento”, disse Marina, que durante 25 minutos de conversa por telefone demonstrou serenidade e confiança no futuro. O plano em questão reúne 13 ministérios e está em vigor há apenas 5 meses. A ministra ressaltou que há um processo de desaceleração do desmatamento, que regrediu de 27% em 2002 para os atuais 6%. “Não estamos conformados nem satisfeitos, mas as taxas estão caindo”.

Marina Silva manifestou preocupação com os números referentes ao estado de Mato Grosso, onde o desmatamento vem crescendo ano a ano. No período 2001/2002, Mato Grosso era o segundo estado que mais desmatava, com 35% do total da área destruída. No relatório 2002/2003, o percentual subiu para 42%, com o estado assumindo a liderança do ranking.

Neste último relatório 2003/2004, Mato Grosso dispara com 48% de toda a área desmatada na Amazônia, bem à frente do segundo colocado, o Pará, que aparece com 25%. A ministra chama a atenção para o fato de Mato Grosso ter recebido recursos federais para estruturar a fiscalização e despontar como o estado mais bem aparelhado para conter o desmatamento.

Enquanto o estado governado por Blairo Maggi – que antes de ser político já era o maior produtor mundial de soja – aparece com quase metade da área desmatada em toda a Amazônia, os índices apurados nos outros estados da região pelos satélites do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revelam uma situação diferente: houve queda nas taxas de desmatamento nos estados do Amazonas (-43%), Acre (-23%), Pará (-9%), Maranhão (-31%), e Tocantins (-47%). Ou seja, o desempenho de Mato Grosso “contaminou” a média anual de destruição dos estados amazônicos. Por conta disso, o governador Blairo Maggi foi convocado pelo CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) para prestar esclarecimentos sobre a devastação da floresta na área sob sua jurisdição.

Sem demonstrar mágoa ou ressentimento, Marina lembra ter encontrado o ministério com apenas 75 funcionários de carreira e inúmeros pedidos de licenciamento ambiental acumulados no IBAMA. Até o fim do governo, segundo a ministra, 900 funcionários deverão ingressar por concurso no ministério emprestando agilidade ao que já deveria estar funcionando bem muito antes da chegada dela.

Para contrabalançar o desgaste político sofrido com a nova lei de biossegurança (que abre caminho para os transgênicos), o polêmico projeto de transposição das águas do rio São Francisco, entre outras medidas do governo Lula que levaram o Partido Verde a abandonar a base aliada, Marina Silva relembra os esforços de sua equipe para emplacar alguns projetos relevantes na área ambiental. Como a transformação de 8 milhões de hectares de floresta em áreas de conservação (principalmente no belicoso estado do Pará); o aumento das áreas de florestas certificadas onde há plano de manejo, de 300 mil hectares para um milhão e 500 mil hectares; a exigência de recadastramento – em parceria com o INCRA – de todos os proprietários de terras com mais de 100 hectares; o “esverdeamento” da BR-163, estrada que liga Cuiabá-Santarém, cujo projeto sofreu inúmeros ajustes na direção da sustentabilidade; a instalação de 19 postos avançados do IBAMA na região amazônica produzindo dados e executando um serviço de inteligência dentro do Instituto.

São realizações que, segundo a ministra, ficaram em segundo plano na mídia. “Meu compromisso é com a realização de medidas estruturantes, não com a pirotecnia”, diz Marina Silva, explicando sua aversão a declarações bombásticas ou medidas de impacto no curto prazo que não tenham efeito pouco tempo depois.

Respeitada por inimigos políticos e ex-aliados, a ministra sabe que empresta ao governo sua biografia e prestígio. Mas confia na sua equipe – boa parte recrutada em organizações ambientalistas – e em Deus. Pode se dizer que sua permanência no governo seja uma questão de fé. No futuro e no Brasil.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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