Que estupidez a nossa desperdiçar a imensa área das marquises do novo Maracanã – quase 29 mil metros quadrados – que poderiam abrigar um vistoso conjunto de placas fotovoltaicas capazes de gerar energia elétrica para até 3.000 domicílios.
O projeto do novo Maracanã confirma a exclusão de um item absolutamente importante para que qualquer projeto de engenharia do gênero possa ser chamado de “moderno e sustentável”. Apesar do variado cardápio de estádios de futebol espalhados pelo mundo com aproveitamento energético do sol, a caríssima obra de reconstrução do Maracanã – quase 1 bilhão de reais – ignorou essa possibilidade.
Estranho que isso tenha acontecido num país onde o sol brilha em média 280 dias por ano. Ainda mais estranho que isso tenha acontecido na cidade que sediou a Rio-92, que vai sediar a Rio+20, e que está situada na mesma faixa de exposição solar que Sidney, na Austrália, que se notabilizou por realizar os primeiros Jogos Verdes da História, inteiramente abastecidos de energia solar.
Cobri como jornalista os Jogos de Sidney em 2000 e lembro-me das imensas estruturas com placas fotovoltaicas que captavam energia solar para iluminar as competições no estádio olímpico, no Superdome e em todas as instalações esportivas. A Vila Olímpica com 665 casas se transformou no maior bairro dotado de energia solar do planeta. O porta-voz do Comitê Olímpico Internacional, o australiano Michael Bland, justificou assim os investimentos em energia solar: “Queremos fazer com que a energia solar se torne popular em todos os países. É ridículo que, na Austrália, todas as casas não usem um captador de energia solar. Temos os telhados, temos o sol, e os desperdiçamos. É um jeito estúpido de levar a vida”.
Que estupidez a nossa desperdiçar a imensa área das marquises do novo Maracanã – quase 29 mil metros quadrados – que poderiam abrigar um vistoso conjunto de placas fotovoltaicas capazes de gerar energia elétrica para até 3.000 domicílios. O custo varia de dez a vinte milhões de reais, dependendo da tecnologia empregada. Alguém poderá dizer: “É caro demais! Não vale a pena”. Mas será que a forma usual de comprar energia está valendo a pena?
Vivemos num país onde, segundo o IBGE, a tarifa de energia elétrica subiu mais do que o dobro da inflação oficial nos últimos 15 anos. A opção pelo solar – embora mais cara – oferece como vantagem a amortização do investimento em alguns poucos anos.
Alguém poderá dizer que a nova marquise – mais leve – poderia não suportar as tradicionais placas fotovoltaicas. Pois que se pensasse numa estrutura compatível. O que está em jogo é a possibilidade de tornar o estádio útil mesmo em dias que não aconteçam partidas de futebol. O Maracanã poderia ser uma usina de energia – ainda que com potência modesta – que além do benefício direto de gerar eletricidade, funcionaria também como elemento indutor de mais pesquisas e investimentos em energia solar no Brasil.
E quem disse que o custo de instalação de um projeto como esse só seria possível com recursos públicos? Se houvesse vontade política para promover inovação tecnológica no setor energético usando o novo Maracanã como garoto-propaganda, seria perfeitamente possível sondar o interesse de grandes empresas com know-how em energia solar que aceitassem instalar os equipamentos fotovoltaicos a custo zero, sem ônus para o governo. E o que essa empresa ganharia em troca? O direito de explorar a imagem do Maracanã como “estádio solar” graças à tecnologia oferecida pela empresa. Alguém duvida que a imagem aérea do estádio tanto na Copa de 2014 quanto nas Olimpíadas de 2016 alcançará bilhões de telespectadores pelo mundo? É mídia espontânea, super-exposição positiva de imagem, e tudo aquilo que um bom negociador não levaria mais do que alguns minutos para convencer o investidor a botar a mão no bolso e bancar a ideia.
Com recursos públicos ou privados, o certo era fazer. Não basta instalar alguns coletores solares para aquecer a água do banho usadas pelos atletas nos vestiários. É pouco. Se os responsáveis pelo projeto do Maracanã marcaram um gol contra desprezando o sol, os estádios de Pituaçu, em Salvador, e Mineirão, em Belo Horizonte, terão a energia solar como aliada para a produção de energia elétrica. Acorda Rio! Maracanã sem energia solar é como o Rio sem praia. Infelizmente os cariocas continuarão usando o sol apenas para se bronzear. Símbolo da sustentabilidade por suas belezas naturais e por sediar grande conferências ambientais da ONU, o Rio de Janeiro continua com um Maracanã aquém do que merece.
André Trigueiro
10 Comentários • Compartilhar





André, assim como o Alex comentou, também não teria sido viável a captação de águas pluviais? O Maracanã deve ter um consumo enorme de água e o aproveitamento da chuva seria muito bem vindo.
Enquanto nosso setor elétrico for comandado por gente da estirpe do Sr. Maurício Tolmasquim, Edison Lobão e Dilma Rousseff, esqueçam fontes alternativas! O negócio deles é encher o Brasil de hidrelétricas mesmo nos aproveitamentos menos eficientes, mais danosos ao meio ambiente e caros para o Estado! Belo Monte q o diga! Será a Balbina do Século XXI! Daqui a 30 anos, nossos orientandos escreverão teses para mostrar o quanto esses projetos foram absurdos!
A empresa que representamos no Brasil, fez a parte superior do World Stadium Khaosiung – Taiwan, http://www.solar-inverter.com/ap/en/656.htm, toda coberta com placas fotovoltaicas e está gerando muita energia. Os governantes brasileiros não tem essa consciência. Aqui no Brasil é difícil vender isso. Não conseguimos sequer vender usinas que transformam o lixo em energia.
Os estádios de futebol do Brasil poderiam ganhar – e muito – com o desenvolvimento dessas tecnologias aplicadas em terrenos com tamanha metragem.
Os gastos oriundos da instalação de novas obras, acordos feitos as pressas, aliados, novamente, com o apetite capitalista deixam marcas da irresponsabilidade onde o país podeira sair ganhando, que seria construções imensas, mas com o minimo de sustentabilidade. Em outras palavras: o estádio teria condições de gastar bem menos recursos hídricos e energéticos do que gastam atualmente.
Assim, mais uma vez, a construção civil perde a chance de ganhar com o uso de novas tecnologias. O maracanã será construído com o que há de mais moderno para os saudosos anos 50 de JK!
Bela observação! Não só o Rio, mas todas as outras sedes para 2014.
Humm… não entendo bem como a microgeração de energia ainda não é regulamentada no Brasil, como mencionou o Fernando. Aqui no Rio Grande do Norte há um boom em micro usinas de Energia Eólica…
André, adorei o texto muito bem argumentado. Não há como dizer que você esteja errado! Tadinho do velho, bem que poderia ser mais “muderno” pra mostrar que o Rio de Janeiro continua lindo. Mas precisa aprender a ser sustentável.
a yingli, patrocinadora da copa da africa do sul e da copa do brasil, propôs a cobertura fotovoltaica do maracanã a custo zero, devemos a mobilização para aprovação da lei de microgeração que está na ANEEL, pois toda a empresa visa lucro, e não existe legislação para microgeração em nosso país.
André, você tem total razão. Nossos argumentos não correspondem aos nosso atos, nossas ações. Esses 29 mil m² poderiam, também, realizar a captação de água da chuva para utilização nas dependências do estádio, já que, além de abundante exposição ao sol, temos grande pluviosidade….mas infelizmente temos um poder público engessado e inerte.
Olá André gostei do que vc falou sobre o Maracanã,é isso ai tanto espaço perdido.