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4 jul 2012
POR: Mundo Sustentável
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Todos somos céticos

A absurda “teoria da conspiração” em favor do aquecimento global

 

Fonte: G1 – Coluna Mundo Sustentável

 

Jornalista não é cientista, mas quando cobre os assuntos da ciência precisa entender minimamente os procedimentos e valores que regem esta comunidade. O que segue abaixo – em tópicos – é um resumo daquilo que me parece importante destacar sobre a cobertura dos assuntos ligados às mudanças climáticas.

 

Quem são os “céticos”?

A boa ciência, por princípio, tem o ceticismo como precioso aliado. São céticos todos os cientistas que norteiam seus trabalhos sem visões preconcebidas, dogmas ou interpretações pessoais da realidade desprovidas da correta investigação científica. É equivocado, portanto, chamar de “céticos” apenas aqueles que hoje se manifestam contra a hipótese do aquecimento global, ou da interferência da humanidade nos fenômenos climáticos.

 

A diferença entre opiniões pessoais e trabalhos publicados

Todo cientista tem o direito de compartilhar opiniões, impressões ou análises superficiais sobre o assunto que bem entender. Para a ciência, isso é tão importante quanto a opinião manifestada por qualquer leigo. Neste meio, vale o que foi publicado em revistas especializadas, de preferência as que adotam o modelo de revisão pelos seus pares, ou “peer review” em inglês (como a Science ou Nature, para citar apenas as mais famosas), onde o conselho editorial é composto por cientistas que indicarão outros cientistas. Estes terão o cuidado de aferir se a nova hipótese para a explicação de um determinado fenômeno seguiu rigorosamente os protocolos de investigação que regem o método científico. Sem isso, o conteúdo em questão – ainda que emitido por um cientista – se resume à categoria de mera opinião.

Na cobertura jornalística, em havendo controvérsia sobre um determinado assunto, convém verificar a quantidade e a qualidade dos trabalhos publicados. Até o momento, os estudos sobre mudanças climáticas se concentram majoritariamente em favor da hipótese do aquecimento global. As duas correntes científicas, neste caso, não são equivalentes nem proporcionais. Embora ambas mereçam respeito.

 

A ciência do clima

Essa é uma área nova de investigação científica extremamente complexa e imprecisa. Não há certezas absolutas (em ciência, pode-se dizer, nunca haverá 100% de certeza já que a hipótese prevalente pode um dia ser invalidada diante do surgimento de novas evidências) e a controvérsia alimenta o debate na busca daquilo que venha a ser a melhor explicação para o fenômeno observado. O próprio IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas)  reconhece em seus relatórios as várias incertezas ainda existentes. As modelagens do clima não explicam totalmente as variações de temperatura em função das emissões de gases estufa. Ainda assim, há hoje mais certezas do que dúvidas de que o planeta está aquecendo e que os gases estufa emitidos pela Humanidade contribuem para esse fenômeno.

As oscilações naturais de temperatura do planeta em eras geológicas, a interferência do Sol nos fenômenos climáticos e todas as outras possibilidades que explicariam o que está acontecendo hoje são objeto de inúmeros estudos e pesquisas. Mesmo assim, segundo a corrente majoritária de cientistas, não há, até o momento, outra explicação mais convincente e embasada para explicar as mudanças climáticas, do que a interferência humana.

Foi por isso que a maioria dos países assinou em 1992 o Acordo do Clima (que reconhece essa interferência no fenômeno climático), consolidou em 1997 o Tratado de Kioto (que estabeleceu prazos e metas para a redução das emissões até 2012), e definiu em 2011 o Mapa do Caminho de Durban (que estabelece o prazo limite de 2015 para que todas as nações apresentem seus compromissos formais de redução dos gases estufa para implementação a partir de 2020).

 

Teoria da conspiração

Soa leviano – quase irresponsável – resumir o endosso à tese do aquecimento global de numerosos contingentes de cientistas e pesquisadores de algumas das mais importantes e prestigiadas instituições do mundo a uma conspiração que teria por fim “impedir o crescimento econômico dos países pobres ou emergentes no momento em que eles poderiam queimar muito mais combustíveis fósseis” ou “privilegiar setores da indústria, especialmente europeias, que desenvolveram patentes de novas tecnologias para a produção de energia mais limpa e renovável”. É incrível ver como declarações nesse sentido são repetidas à exaustão por pessoas que, em alguns casos, se dizem cientistas.

Com toda franqueza: como imaginar que a maioria absoluta dos países (ricos, emergentes e pobres) com suas muitas diferenças políticas, ideológicas, econômicas e sociais, sejam manipulados de forma tão grosseira em favor de uma gigantesca farsa que teria o poder de burlar a vigilância de suas respectivas comunidades científicas? Essa absurda teoria conspiratória relega a segundo plano a idoneidade, a honestidade intelectual e a autonomia de pessoas físicas e jurídicas do mais alto gabarito, em quase 200 países, que avalizam publicamente a hipótese do aquecimento global, e com influência humana. Em se tratando apenas de personalidades brasileiras, deve-se mais respeito a figuras como José Goldemberg, Paulo Artaxo, Carlos Nobre, Luis Pinguelli Rosa, Roberto Schaeffer, Suzana Kahn, Gylvan Meira, entre tantos outros que são reconhecidos dentro e fora do país, inclusive pela produção acadêmica que lhes afere enorme credibilidade.

Como imaginar que esse suposto “movimento orquestrado em favor do aquecimento global” seja ainda mais poderoso do que o lobby dos combustíveis fósseis (ou mesmo das empresas do setor automobilístico), a quem a hipótese da elevação da temperatura do planeta pela queima de óleo, carvão e gás tanto incomoda por razões óbvias? É inegável o poder que as companhias de petróleo ainda possuem para financiar campanhas, definir políticas públicas e os resultados de Conferências da ONU, como foi o caso recentemente da Rio+20, onde não se conseguiu reduzir em um único centavo aproximadamente 1 trilhão de dólares anuais em subsídios governamentais para os combustíveis fósseis no mundo inteiro.

 

A justiça é cega?

Merecem registro decisões históricas da Justiça americana – baseadas única e exclusivamente no conhecimento científico já construído sobre o aquecimento global – de que o dióxido de carbono (CO2) é um “gás poluente” (Suprema Corte/abril de 2007) e que o Governo Federal tem competência para regular as emissões de gases estufa (Tribunal de Apelações, semana passada, por unanimidade). Como os juízes não são especialistas no assunto, foram buscar a informação mais confiável e balizada possível na literatura, junto a peritos e instituições renomadas acima de quaisquer suspeitas. Neste caso, o trabalho dos juízes se confunde com o dos jornalistas na busca pela informação mais confiável.

 

O risco

Se não há 100% de certeza se os gases estufa emitidos pela Humanidade – especialmente pela queima progressiva de óleo, carvão e gás – contribuem efetivamente para o aquecimento global, por que se deveria apressar investimentos em mitigação (redução das emissões) e adaptação (prevenir risco de mortes e importantes perdas materiais em função dos eventos extremos, elevação do nível do mar etc)? A resposta é simples e leva em conta a mesma lógica que determina a opção por um seguro de vida, da casa ou do carro. Em todas essas modalidades de seguro, a probabilidade de acontecer algo indesejado é muito menor do que aquela que os cientistas apontam em relação ao clima. Ainda assim, muitos de nós consideram sensato recorrer a companhias de seguro para se precaver de eventuais riscos, por mais remotos que sejam.

Há outra questão importante: todas as recomendações do IPCC para que evitemos os piores cenários contribuiriam para um modelo de desenvolvimento mais inteligente e saudável. Reduzir as emissões de gases poluentes, combater os desmatamentos, tratar o lixo e o esgoto, promover a eficiência energética, priorizar investimentos em transportes públicos de massa, entre outras medidas, geram mais qualidade de vida, saúde e bem estar. São as chamadas “políticas de não arrependimento”. Se em algum momento for proposta outra hipótese robusta para as variações do clima, o que se preconiza agora como “o certo a fazer” não deixará de ser “o certo a fazer”. Mudaria apenas o senso de urgência para que os mesmos objetivos sejam alcançados.

 

Qual é a prioridade?

Num mundo onde ainda há tanta pobreza, fome e miséria, pode-se defender como prioridade a canalização de recursos para a solução imediata destes problemas. É um pensamento legítimo. Mas o caminho do desenvolvimento pode ser sustentável e inclusivo. Uma agenda não exclui a outra. Uma questão dada como certa por boa parte dos cientistas é que o não enfrentamento das mudanças climáticas tornará a situação dos pobres e miseráveis ainda mais angustiante e aflitiva. Melhor agir, e logo.

 

André Trigueiro

 

 

 

 

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11 Comentários

  • Rodrigo Silva

    Me lembrou a Primavera Silenciosa (Rachel Carson) e sua batalha contra a Du Pont (maior produtora de pesticidas)!

  • Sidartha

    Qualquer discussão favorável à defesa da natureza deverá necessariamente incorporar a questão da recuperação política e social do planejamento em nível macro como meio de se alcançar aquele objetivo. Não é difícil demonstrar que a lógica do mercado (multidão de agentes econômicos egoístas e racionais em interação entre si em busca da satisfação individual) não é capaz de alcançar objetivos que contemplem os interesses fundamentais da coletividade humana. Estes só podem ser alcançados pela ação política consciente, a qual seja base de uma política planejada de preservação do meio ambiente e garantia dos mínimos sociais. A “mão invisível” do mercado só consegue a satisfação de interesses pontuais, fragmentados e curto-prazistas. Só a mão visível do planejamento politicamente guiado pelas aspirações dos cidadãos republicanos é capaz de fixar objetivos gerais, articulados/integrados e de longo prazo. No lugar da competição fratricida entre corporações e países, a cooperação fraterna garantida por um governo mundial, por uma federação na qual todas as nacionalidades sejam igualadas enquanto manifestações particulares de uma mesma e única Humanidade, a qual deve ter interesses e direitos fundamentais ou universais.

  • Sidartha

    Prezado André,

    De minha parte, penso que não há solução possível para a questão ambiental que não passe pela questão do sistema socioeconômico que determina a interação entre Homem e natureza, o sistema capitalista.

    Sim, é verdade que o histórico de destruição da natureza pela ação humana é anterior ao capitalismo (vide o caso da Ilha de Páscoa, para ficar num exemplo). Mas parece indubitável que a lógica capitalista expressa uma violenta subordinação da natureza aos imperativos da acumulação e do lucro, imperativos estes que não hesitam um só segundo em submeter também o bem-estar humano aos seus desígnios.

    O industrialismo e o consumismo sem limites de bens e serviços supérfluos são as pontas-de-lanças da humanidade em sua cruzada contra a natureza e o planeta. Não por acaso, são também os pilares sobre os quais se sustenta o sistema capitalista.

    Creio que não há crítica consistente à lógica de destruição ambiental que desconheça a história do capitalismo. Quando, em sua história, a dinâmica do capital admitiu desacelerar sua velocidade em favor de razões ecológicas?

    Hoje mesmo, em plena era de discussões acerca do meio ambiente: quantos recursos são destinados à preservação da natureza, e quantos são os recursos destinados à recuperação do sistema financeiro mundial?

    Penso, portanto, ser completamente fadado ao fracasso todo e qualquer movimento social em defesa do meio ambiente que ignore as raízes atuais (e históricas) pelas quais o ser humano devasta o planeta – o consumismo e o industrialismo catalisados pela lógica do lucro, do capital.

  • Sidartha

    Apenas uma ressalva ao comentário de Hugo Penteado: ao contrário do que ele afirma, a extinção da vida NÃO LEVARÁ à extinção da água. A existência de água (H2O) não depende em nada da existência de seres vivos. Sugiro maior precisão conceitual aos defensores da “economia verde”, como o supracitado.

  • aranha

    Pelo que vi neste site, as temperaturas médias desde 2003 estão estáveis. Na verdade decaindo um pouco. Estranho…Pelo que conhecia sobre a teoria, a terra está sempre aquecendo um pouco devido às emissões de C02 só aumentarem.
    Tem alguma coisa errada aí.
    Este site é confiável?????
    Estou me referindo ao site http://discover.itsc.uah.edu/amsutemps/ postado por Jandui.

  • Romualdo

    Está na cara que os Cientistas que são céticos com relação ao aquecimento Global, estão de alguma forma envolvida com algum Grupo Empresarial ou Financeiro.
    Não devíamos mais perder tempo argumentando com Pessoas que estão muito mais Preocupadas em aparecer na mídia e falando de assunto que praticamente desconhece.
    A pouco tempo apareceu um Climatologista da USP divulgando em alguns programas que o aquecimento Global não existe e que se toda a floresta Amazônica desaparece, em 20 anos a mesma floresta voltaria como se nada tivesse acontecido, passado alguns dias o mesmo Cidadão estava participando de um evento do agronegócio no Pará, o mesmo grupo de Empresários do Campo que estão mudando o código florestal para a obtenção de lucro rápido, atropelando a tudo e a todos por pura Ganância.
    André e a todos
    Um abraço.

  • Andresa G. Wagner

    André

    Reforçando tuas palavras, as de Claudia Guimaraes e de Hugo Penteado, acredito que a prioridade é sim melhorar a qualidade de vida, independentemente de uma possível comprovação científica do aquecimento global. Minha percepção é que muitos esforços estão sendo empregados em “comprovar teorias” quando precisamos de mais ações efetivas voltadas a erradicação da pobreza, a mitigação da degradação socioambiental e a implantação de uma governança global que promova o desenvolvimento de uma sociedade biocêntrica.
    A crise econômica vivida na Europa reflete a falência do atual modelo de desenvolvimento que tem privilegiado a dimensão financeira das economias nacionais em detrimento da dimensão social e humanista presente nos primórdios fundamentais do pensamento econômico. Enquanto a economia não resgatar seu lado humano e social, continuaremos “secando gelo” nestas épocas de mudanças climáticas. Falar em economia verde é muito superficial quando precisamos enquanto espécie resgatar o valor da vida, não na perspectiva econômico-financeira, mas como resultado da evolução das espécies.

  • Claudia Guimarães

    Poucas vezes na História recente se viu um debate ser conduzido de forma tão mal-intencionada como a que presenciamos em relação ao tema do aquecimento global.

    Propositalmente, se misturam “alhos com bugalhos” para colocar em xeque uma teoria que conta com o apoio da maioria absoluta da comunidade científica internacional.

    O fato desses cientistas apontarem que há fortes indícios de que, sim, a ação do homem está contribuindo para uma elevação da temperatura do planeta, NÃO significa negar o óbvio.

    Ou seja, defender o aquecimento global de origem antropocêntrica NÃO significa negar que o CO2 seja indispensável à vida.

    NAO implica negar que a Terra vive ciclos geológicos.

    NÃO significa menosprezar a ação do Sol sobre o nosso planeta.

    NÃO implica negar que algumas regiões do planeta possam vir a se beneficiar de uma possível elevação da temperatura global, como o norte da Rússia.

    Mas, acima de tudo, NÃO significa negar a bilhões de pessoas de países pobres ou em desenvolvimento o acesso à energia, à água tratada, a um ar menos poluído e o direito à segurança alimentar.

    Nada disso poderá ser alcançado por esses países, caso se confirme que a temperatura da Terra está se elevando, em consequência, não só mas também, do nosso “modelo de desenvolvimento”.

    Simplesmente porque em todas as situações extremas, de qualquer tipo – de guerras a crises financeiras globais – os pobres são sempre os mais afetados.

    E não será diferente, no futuro, caso se comprove que a maioria esmagadora da comunidade científica estava certa quando, ainda no século XX, passou a defender uma economia de baixo carbono, mais investimentos em fontes de energia renováveis e não-poluentes, e mudanças no nosso padrão de produção e consumo.

  • Hugo Penteado

    André,
    Como sempre e mais uma vez você vai na direção certa.
    O ceticismo vem sendo alimentado por interesses corporativos mal intencionados que financiam pesquisas contrárias às descobertas em relação ao clima, praticamente impossíveis de serem negadas. O ceticismo hoje em relação às mudanças climáticas não tem nem 1% do fundamento da ciência do clima que levou mais de 50 anos para alcançar suas descobertas e é praticamente impossível negar centenas de estudos feitos durante esse perído sobre o aquecimento global.
    A mídia está contribuindo negativamente ao dar mais atenção aos céticos do que a esses cientistas, dando maior peso a eles do que aos cientistas do IPCC e outros e você está certo ao dizer que isso tem que mudar. O número de informações erradas são grandes, como por exemplo, evidências contrárias às mudanças climáticas, quando na verdade os relatórios apontam para alterações mais aceleradas do que o esperado e o próprio IPCC sabe que alguns lugares esfriam, outros esquentam, algumas formações de gêlo aumentam e outras diminuem, mas a alteração é inegável na direção de crescentes anomalias e riscos de rupturas que nenhum ser humano deveria sonhar vivê-las, porque será a tragédia ou o fim da nossa espécie animal. Quem trabalha dessa forma, negando evidências, tem que se lembrar que somos todos parte da mesma espécie e essa discussão pode estar sendo travada numa mesa do Titanic, onde sequer sabemos se estamos antes ou depois da colisão com o iceberg ou pior, sequer sabemos se dá tempo de mudar a rota e se dá para fazer algo depois da colisão.
    Precisamos relatar mais o que já está acontecendo no mundo em relação às mudanças climáticas, vou citar algumas: 1) no deserto de Atacama em fevereiro desse ano choveu quatro dias torrenciais sem parar, criando rios caudalosos no lugar mais seco da Terra e ninguém noticiou; 2) a floresta Amazônica passa por pressões climáticas ameaçadoras, com enchente em 2005, seca em 2010 e enchente em 2012, ou seja, Niro Higuchi, o único cientista brasileiro do IPCC que não é citado em nenhum lugar me informou que por conta desses eventos ameaçadores a floresta pode morrer inteira sem precisar mais nenhuma moto-serra e os institutos de pesquisa da Amazônia estão correndo atrás do efeito prolongado que esse estresse hídrico jamais visto na história da floresta irá causar a ela (seria bom também levantar os estudos de fragmentação florestal na Amazônia que colocam na direção do desaparecimento partes enormes da floresta por conta dos fragmentos não serem capazes mais de regular a reprodução florestal que depende de pequenos mamíferos e de um número correto de espécies vegetais machos e fêmas e essas perdas não estão nas estatísticas falhas de desmatamento que são divulgadas); 3) nunca foi observada redução dramática do gelo no polo norte como agora e novas rotas marítimas foram abertas e assustadoramente, os esquimós que passaram milhares de anos dependentes de cachorros para caça, hoje fincam um ferro no chão e abandonam os cães que eram parte da família pois trocaram trenós por barcos para caçar (há uma ONG tentando salvar esses cachorros da morte).
    O “ceticismo manipulado pelos interesses” também aconteceu no caso do buraco da camada de ozônio e essa história está no livro Senhores do Clima de Tim Flannery. Quando os cientistas descobriram a relação entre os gases CFC com o buraco de forma definitiva, o maior produtor mundial do gás que entra em vários eletrodomésticos como geladeiras promoveu um lobby internacional durante vários anos para evitar o banimento do gás. Essa empresa estava colocando em risco a vida na Terra, porque sem a camada de ozônio nenhum gene é preservado, o fim da camada de ozônio é o fim da vida na Terra. De alguma forma o buraco voltou a aumentar recentemente.
    A evidência maior do ceticismo atual em nada difere do que aconteceu com o Ozônio. Após a descoberta da relação inequívoca entre os gases do efeitos estufa derivados de atividades econômicas poderosas, surgiu uma forte resistência implementada para negar essa relação e evitar políticas que levem ao banimento da emissão desses gases. Adicionalmente, a preocupação com mudança climática criou o “mito do único problema”, como se o que fazemos com os ecossistemas destruindo eles diariamente, continuamente não fosse tão mais ameaçador quanto uma mudança climática que alguns duvidam e fomentam uma controvérsia inútil sobre ela. Para se ter uma ideia, provocamos a maior extinção em massa da vida desse planeta dos últimos 65 milhões de anos e como do ponto de vista da biologia somos todos um, é muito ingênuo achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores. Podemos contar em dias a perda de espécies animais e vegetais. Charles Darwin escreveu que nada diferencia os seres humanos dos demais animais. Está na hora de reconhecermos nossa fragilidade, vulnerabilidade, insignificância.
    Tudo isso está sendo causado por uma teoria econômica falsa e um modelo de negócios que omitem as variáveis socioambientais dos seus objetivos e que leva a incrível noção que o planeta é um subsistema do nosso sistema sócio-econômico e que para as economias não há fronteiras ou limitações, pode crescer indefinidamente. Nos livros de macroeconomia de economistas famosos como Joseph Stiglitz, Paul Krugman, Robert Solow, David Romer, é declarado que “a natureza é totalmente irrelevante para o sistema econômico”. Para os economistas tradicionais a economia pode ser maior que o planeta.
    Na verdade, nosso sistema sócio-econômico é um subsistema do planeta e enquanto não respeitar os limites biofísicos, planetários, ecológicos dos ecossistemas interligados planetariamente os resultados não irão mudar e a mudança climática é um dos nossos problemas, não é um único problema e seguramente não é o pior. A extinção da vida vai levar à extinção da água e sem animais e plantas a água sumiria desse planeta. Do ponto de vista da biologia somos todos um, vivemos, crescemos e nos reproduzimos de forma totalmente dependente da natureza e seus seres vivos. Assusta porque 80% do que entra pela nossa boca é água e 60% do nosso corpo é água e com a rota de colisão atual podemos estar seguros que estamos a caminho da nossa própria extinção se não mudarmos esse modelo crescimento econômico eterno dependente de consumo estúpido e inconsciente financiado por dívida (e não por renda do trabalho), com toda essa dívida “criada” por emissões de moeda sem lastro pelos bancos centrais e omissão dos governos. Precisamos de mudanças radicais e não de mais mitos, como de energia limpa, economia verde, mecanismos de desenvolvimento limpo que só reforçam a separação entre economia e meio ambiente em todas as ações praticadas individual e coletivamente.
    Enquantou houver RIO+20, há os mitos, o principal deles é o da superação da humanidade em relação a natureza e a total desconexão na qual vivemos em relação às forças que nos mantém vivos.
    Abraço
    Hugo

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