As crises socioeconômica e ambiental reforçam posições equivocadas de que o crescimento é uma das principais questões do século XXI
Por Rubens Harry Born, Fundador e integrante do Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz
Fonte: Vitae Civilis

Artigo publicado no jornal O Globo, 5 fevereiro, 2013
Enfrentamos, nesse início de 2013, mais um dilema: ao passo em que se difundem ideiais e interpretações sobre o que significa a sustentabilidade ambiental e social do desenvolvimento, parece que mais evidentes e graves são os desafios da “mera” sobrevivência de milhares ou milhões de pessoas. A atual crise econômica global, inicialmente percebida nos países industrializados, afeta os países em desenvolvimento nos seus esforços de superação da pobreza e desigualdade e, por outo lado, reforça posições equivocadas que o crescimento econômico nos desviará do abismo e da crise ambiental planetária.
Ambas as duas crises, socioeconômica e socioambiental – ou seja, a exernalização da pobreza e da degradação ambiental – refletem padrões e culturas que não deram efetiva centralidade aos direitos humanos por dignas condições de vida para todos, o que inclui manter e recuperar a integridade dos processos ecológicos.
A busca da sustentabilidade requer acelerar e efetivar ações justas. Em pleno século XXI, é inadmissível contar com meras medidas para a sobrevivência. Para milhões de pessoas, a questão chave ainda é a sobrevivência. Para outros, a bsuca da sustentabilidade? O que torna essas questões tão distintas para contingentes de pessoas tão diferentes em diversas partes do globo?
Os fatos e evidências estão aí. Em Pequim, na China, autoridades locais advertem moradores sobre os riscos de se respirar o ar muito poluído; em Genebra países não conseguem um acordo que possa restringir a contaminação de mercúrio. Milhares de pessoas morrem diariamente em consequência de doenças resultantes da falta de saneamento (cerca de 2,4 bilhões não têm coleta ou tratamento de esgoto). Beber água, para essas pessoas, pode ser condição para sobrevivência ou risco de vida. Há mais pessoas obesas (ou com peso acima do recomendado) do que um bilhão de seres humanos afetados pela fome, o que indicaria falhas nas condições de acessoa uma alimentação, situação em que interferem questões como de publicidade, renda,e, “sorte ou azar” de nascer ou viver em determinada região ou país.
Desde 1990, segundo o Pnuma, 300 milhões de hectares de florestas foram derrubados, embora tenha havido crescimento de 20% ao ano na certificação de manejo florestal (e somente 10% das matas para produção de madeira tenham alguma certificação). O êxodo rural fez inchar as cidades nos últimos 60 anos. Essa é uma tendência em todos os continentes e mais de 50% da população mundial e 80% das pessoas no Brasil vivem em cidades, demandando cerca de 75% do consumo global de energia e fonte de 80% das emissões são originárias de somente 19 países, enquanto 1,4 bilhão de pessoas sequer tem acesso à rede ou servições regulares de eletricidade. A energia solar e a eólica respondem por somente 0,3% do total de energia produzida.
Por que tantas assimetrias? Por que alguns milhões de pessoas estão no limiar da sobrevivência e outros, minoria ainda, querem cada vez mais acelerar as iniciativas humanas para a sustentabilidade socioambiental?
Um primeiro elemento é a ética, a dignidade da vida de todos; o segundo é a escala de ações. Precisamos de medidas na esfera “micro”, ou seja, de atitudes e práticas de pessoas, de empresas, de comunidades. Além de ações na escala “macro”, reveladas em políticas públicas (locais, nacionais e internacionais) e no comportamento econômico, tecnológico e socioambiental de corporações. O terceiro e importante elemento é o tempo das ações. Não é aceitável prometer melhoria de condições de sustentabilidade ou de sobrevivência para daqui a algumas décadas. É preciso urgência na efetivação de ações e obtenção de resultados. Quanto mais diplomatas e governantes adiarem acordos efetivos para a mobilização de recursos e consecução de objetivos de desenvolvimento sustentável, mais pessoas sofrerão as consequências, por vezes letais, da insustentabilidade.
Postado por Daniela Kussama
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