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Micro Blog
30 ago 2016
POR: Mundo Sustentável
CATEGORIA: Destaque, Microblog
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Quando o “provedor” mata a família

Considerações sobre o crime bárbaro da Barra da Tijuca/RJ

 

Quatro pessoas de uma família foram encontradas mortas hoje em um condomínio na Barra da Tijuca. Pai, mãe e dois filhos. As investigações estão em curso mas – ao que tudo indica – o pai teria assassinado a mulher e os filhos e, depois, cometido suicídio. Uma carta encontrada no apartamento – a perícia deverá confirmar se foi assinada pelo pai – revela desespero.

“Me preocupa muito deixar a família na mão”;
“Não vamos ter mais renda e não vou ter como sustentar a família”; “Melhor acabar com tudo logo e evitar o sofrimento de todos”

Evitarei aqui os detalhes de como os crimes foram cometidos. Não é o que me interessa destacar nessas linhas.

O que mais me chamou a atenção foi a repetição de uma tragédia que teve lugar na mesma Barra da Tijuca, há 13 anos, quando um empresário matou a mulher e as duas filhas enquanto dormiam, para depois cometer suicídio. Não se encontrou nenhuma carta como agora, mas sabia-se que o empresário enfrentava dificuldades financeiras. Falido, angustiado por não conseguir manter o padrão de vida, exterminou a família e a si próprio.

Chocantes, bárbaros, os dois crimes revelam coincidências perturbadoras: pais, provedores de família, residentes na Barra da Tijuca, são acometidos de uma terrível angústia aparentemente motivada pelo risco de se mudar o padrão de vida. No caso, uma realidade mais austera, com menos gastos, e eventuais ajustes na rotina ou perda de patrimônio.

As duas famílias assassinadas por quem as deveria proteger não tiveram opção. Não foram desafiadas a se adaptar a uma nova realidade. Não tiveram a chance de demonstrar o amor – esse sentimento que se revela ainda mais nobre e resiliente nos momentos difíceis – que os unia.

Sofrer em silêncio – não importa por qual motivo – dói mais.
Importa reconhecer quando nos encontramos em sofrimento persistente, para que procuremos ajuda. Desabafar ajuda. Confiar nos amigos ajuda. Confiar na família ajuda. Ligar para o CVV (141) ajuda. Procurar uma unidade do CAPs (Centros de Atenção Psicossociais) ajuda.

Milhões de brasileiros surpreendidos pelo desemprego, por uma abrupta mudança no padrão de vida, ou por outra situação difícil qualquer, seguem em frente. Tornam-se mais fortes quando testados pelos dissabores da existência. Reconhecem os verdadeiros amigos nas situações mais difíceis. Se surpreendem com a solidariedade incomum de alguns familiares na hora do aperto.

E mesmo quando tudo falta, quando nada parece dar certo, há os que descobrem no limite da dificuldade um novo sentido para a vida. Invariavelmente saem desta realidade hostil ainda melhores e fortalecidos.

A vida não dá ponto sem nó.
Confiemos na vida.
É assim que funciona.

 

André Trigueiro

 

 

 

5 Comentários

5 Comentários

  • alexandre

    Foram duas notícias de suicídio no mesmo dia… Uma no Rio e outra em são Paulo. Em comum, o estermínio da família, as cartas expressando angústia e, o que mais nos deixa perplexos, a aparente “normalidade” dos autores…
    Ontem, pela primeira vez, surgiu o assunto suicídio na roda de conversa dos colegas de trabalho… Com perplexidade escondida atrás de brincadeiras, procurava-se entender as causas…
    O suicídio e a depressão são tabús, como era a aids…
    Naquela época, acreditava-se que o perigo do contágio estava restrito aos grupos de risco. Então quem estava fora deles não precisava se preocupar. E esse pensamento custou milhares de vidas…
    Hoje muita gente ainda acredita que depressão é frescura, coisa de gente fraca ou sem fé e que estaria na herança genética a pré-disposição para esses distúrbios.
    Lógico que depois vem aquele mesmo raciocínio de estar fora desse grupo de risco…
    No entanto os fatos estão aí e a vida não se obriga a corresponder às nossas espectativas…
    Pelo que já li, a depressão tem componentes biológicos, sociais e culturais e o suicídio é um processo que começa com o isolamento emocional…
    Todos estamos expostos aos dissabores do mundo e, como dizia uma música que gosto muito: “o pop não poupa ninguém” (Engenheiros do Hawaii).

  • Marcello Dias

    A vida baseada unicamente no materialismo e no dito “padrão ideal”, já deixa de ser vida e passa a ser uma submissão ao mundo idealizado, portanto anti-natural!
    Não posso julgar a atitude do pai que cometeu o ato,pois não me cabe, mas os tempos atuais deixam marcas de sua tradução, ou seja, o homem artificial, “perfeito”como sinônimo de bem sucedido e voltado cada vez mais para o exterior, para o que o mundo artificial tem a oferecer e somente isso! Infelizmente o afastamento da natureza, da simplicidade, do afeto,do carinho e do essencial que não se compra com dinheiro ficou fora para dar lugar ao egoísmo e vaidade voltada para os outros assistirem! Uma família dita perfeitinha de Barra da Tijuca, imediatista e reflexo de uma sociedade doente espetacular!

  • Wilma Pompeu de Camargo

    Na minha opinião, a economia de mercado praticada pelo Brasil e por tantos países, não só colocou o planeta em risco real mas tornou seus escravos todos os seres que a ela são submetidos. Um pai de família na Barra da Tijuca tem que ganhar muito. Seus filhos tem que consumir ou sofrerão bulling por não ter o celular, o tênis, o casaquinho de couro, a camiseta da onda. Essa família não conseguiu priorizar o amor e a sua união como muito mais importantes do que qquer tipo de posse. Quem matou essa família, em última instância, foi a política econômica.

  • renate marianne perez

    É comum procurar a culpa de crimes tão
    ignóbeis e incompreensíveis, nas mudanças de circunstancias. 0 que lhes
    falta mesmo, é a confiança incondicional
    no futuro que o Criador sempre provê a
    quem NELE confia.
    Sem desafios, não há crescimento do “eu” interior, não há formas de expansão da consciência. A cada desafio sempre, sem excessão, se nos
    apresenta um novo caminho a tentar.
    É preciso continuar tentando até encontrar a trilha que nos guiará a
    uma estrada e esta à solução dos
    problemas.
    Há que se confiar em Deus, incondicionalmente, digo mais, cegamente!!!

  • lorena

    Excelente reflexão, André. Poder se reinventar sempre, com ou sem grana, confiantes no poder soberano do Amor e da Vida, isso é o que somos!

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