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5 dez 2016
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Amazônia bovina

‘Diz muito mal sobre a inteligência humana trocar esse mundo de floresta, com toda biodiversidade de vida que ela abriga, por capim’. Em outubro o navio Haidar estava embarcando cinco mil bois vivos quando adernou e afundou.

 

Por Lúcio Flávio Pinto, jornalista, sociólogo, editor do Jornal Pessoal, e escritor.

Fonte: Amazônia Real

 

O Pará é a maior vítima do desmatamento dentre os Estados da Amazônia. Só entre 1988 e este ano perdeu 145 mil quilômetros quadrados de floresta, a maior parte dela simplesmente queimada. O maior incêndio já documentado pelo homem (no caso, pelos cientistas da agência espacial americana, a Nasa, que monitoravam o satélite Skykab) aconteceu em 1976, no início da era do registro da Terra por satélite, quando a Volkswagen queimou quase 10 mil hectares em sua fazenda de 139 mil hectares em Redenção, no sul do Pará. Só na Amazônia, ao invés de montar veículo automotor, a Volks montou boi.

A área desmatada no Pará em menos de 30 anos é do mesmo tamanho do Ceará. Não surpreende que boa parte da cobertura vegetal nativa tenha sido substituída por pastagem, que alimenta o quarto maior rebanho bovino do Brasil (com 22 milhões de cabeças, quase o triplo da população humana do Pará) e o maior de todos os municípios pecuários do país, São Félix do Xingu (com quatro milhões de cabeças), que já foi coberto por mata milenar.

Diz muito mal sobre a inteligência humana trocar esse mundo de floresta, com toda biodiversidade de vida que ela abriga, por capim, recursos genéticos por boi. Mas que tal, além disso, exportar boi em pé para países da América Latina e do Oriente Médio?

O estado é o principal exportador de boi em pé, um tipo de comercio que ganhou fôlego nos últimos anos e conquistou mercados importantes no Oriente Médio e na América Latina. Em 2014 o Estado exportou 500 mil cabeças, que proporcionaram renda de 2,4 bilhões de reais.

O Pará é o principal exportador de boi em pé do Brasil, mas a empresa que está no topo do mercado é de São Paulo. A Minerva Foods embarca o rebanho no maior porto de exportação do Norte, de Vila do Conde, em Barcarena, que fica a 50 quilômetros de Belém. Ele sedia uma multiplicidade de indústrias.

A Alunorte, por exemplo maior produtora de alumina (produto intermediário entre a bauxita e o alumínio metálico) do mundo, que já foi da Vale dos japoneses e agora pertence à Norsk Hydro, com controle do governo norueguês, que também possui a Albrás, a oitava maior produtora de alumínio primário do mundo, que também foi da Vale e continua a ser dos japoneses. E muito mais.

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Em 6 de outubro do ano passado o navio Haidar estava embarcando cinco mil bois vivos quando adernou e afundou atracado a um dos berços do grande porto. Alguns bois conseguiram subir para o lado da embarcação que ainda não estava coberto pela água. Outros afundaram junto com a estrutura e morreram logo. Dezenas de carcaças chegaram às belas praias de rio com movimento de maré que o assemelha ao mar. Moradores posaram sobre os cadáveres como se fora uma cena bucólica.

Um ano depois o píer do naufrágio continua interditado, impedindo a atracação de navios. Com o intenso movimento das embarcações que chegam para levar alumínio, alumina, bauxita, caulim, ferro ou soja, as filas se formam em frente. O atraso de cada dia custa 30 mil dólares, mas se transfere o valor para o célebre custo amazônico. O valor da carga perdida era de R$ 14 milhões, mas a soma do prejuízo chega a R$ 800 milhões. E daí? Quem paga?

Sem um plano adequado para uma reação imediata à altura da gravidade do acidente, os bois que boiaram foram enterrados numa vasta vala comum. Mas a maioria apodreceu até a total decomposição dentro do navio, de onde também vazava óleo. Foi o maior acidente desse tipo em todo mundo. Qual a sua causa? Talvez o fato de que o navio foi construído para transportar contêineres e adaptado, com outro nome, para se tornar boiadeiro. Boi não é carga imóvel: ele se move. As violentas condições de confinamento deram seu primeiro resultado em 2012 aconteceu o primeiro acidente. Em um navio também afretado pela empresa paulista, 2,7 mil bois morreram asfixiados nas suas celas (ou seriam camarotes?). Deu em nada, apesar do horror das imagens, como as do ano passado.

Esse comércio dá dinheiro para alguns grupos. Ninguém mais se assusta de ver autênticos transatlânticos bovinos levando sua carga viva, sob duro confinamento, para uma longa viagem pelos mares. O dinheiro obtido apaga a visão que podia chegar à origem dessa cena digna das descrições alucinadas e alucinantes da crueldade europeia na África, como a belga no Congo. Mas ninguém vê as semelhanças na Amazônia. Ainda subsiste no imaginário coletivo o sonho do paraíso, perdido desde sempre.

 

 

 

 

Postado por Daniela Kussama