Sobre quem faz a diferença em favor de um mundo melhor
Entrevista com André Trigueiro
Lúcia
Chayb
No Brasil de hoje, é possível identificar projetos com princípios
sustentáveis em nível governamental?
É possível sim. Vejamos alguns exemplos que me parecem bem
interessantes: as licitações sustentáveis que privilegiam
a compra pública de produtos e serviços com o menor impacto
possível ao meio ambiente já são realidade em cidades
como São Paulo e Porto Alegre. Já existem também leis
municipais que tornam obrigatórias em Curitiba e no Rio de Janeiro
a instalação de sistemas inteligentes de coleta, armazenamento
e uso de água de chuva.
As câmaras municipais de Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e
São Paulo discutem regras que tornem obrigatória a instalação
de coletores solares para aquecer a água do banho em diferentes
tipos de edificação.
A cidade de Belo Horizonte conta com três usinas de reciclagem de
entulho e São Paulo já obriga os empreiteiros a se responsabilizarem
pela destinação inteligente do entulho das obras e a usarem
apenas madeira certificada nas construções.
Enfim, há inúmeras iniciativas que não costumam aparecer
em lugar de destaque na grande mídia, mas que ensejam esperança
e otimismo. O Brasil está mudando. Não com a velocidade que
gostaríamos, mas na direção que desejamos.
Como você vê a transversalidade objetivada pela Ministra
Marina Silva?
Entendo a transversalidade como um conceito moderno e arrojado de gestão,
onde as responsabilidades – no caso, na área ambiental – são
compartilhadas. Num regime presidencialista, o sucesso dessa estratégia
depende basicamente da sinalização que a maior autoridade
da república dá para que se cumpra esse objetivo. Ela se
resolve no dia-a-dia, na condução dos projetos, na definição
das prioridades, nas rotinas da administração pública.
Nesse sentido, embora reconheça que houve avanços em alguns
programas, como o do combate ao desmatamento no primeiro mandato, entendo
que o Presidente Lula mantém-se muito distante de um modelo de gestão
em que a transversalidade seja efetivamente praticada, e a questão
ambiental seja entendida como eixo das políticas públicas
em andamento.
Ao eleger o meio ambiente como um dos entraves ao desenvolvimento – semanas
antes de lançar o Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC) – o presidente foi no mínimo precipitado. O único
mérito dessa declaração infeliz foi motivar a resposta
dada pela Ministra Marina: “Perco a cabeça mas não
perco o juízo”.
Os Estados e Municípios priorizam políticas sustentáveis
em suas ações?
Até onde me é possível acompanhar, a maioria dos
governadores e prefeitos parece desconhecer o significado da expressão “política
sustentável”. O analfabetismo ambiental predomina na classe
política. Os interesses são imediatistas, os projetos mais
interessantes são aqueles que se resolvem no tempo do mandato – 4
anos – e faz parte da cultura política entender a realização
de grandes obras como o carro-chefe de qualquer administração
que se pretenda bem sucedida.
Além disso, há alianças inescrupulosas com empreiteiras
e construtoras que apóiam as campanhas eleitorais em troca de grandes
projetos que consomem os parcos recursos disponíveis. Mas não é difícil
encontrar nos diferentes níveis da administração pública
pessoas que já acordaram para a necessidade de estimular outros
valores e atitudes. Não raro, essas pessoas formam grupos, conquistam
apoios, organizam movimentos, e abrem espaço para a formulação
de projetos que inibem os interesses mesquinhos e imediatistas.
O grande trunfo da sustentabilidade é que os projetos bem consolidados
asseguram benefícios econômicos, sociais e ambientais de longo
prazo. Até sob o ponto de vista da sobrevivência política, é inteligente
ser sustentável.
Que instituições da sociedade civil se destacam com ações
sócio-ambientais efetivas? Poderia exemplificar?
São tantas que dificilmente deixaria de cometer uma injustiça
ao citar nomes. Mas vamos lá: o Instituto Socioambiental, para quem
destinamos a totalidade dos direitos autorais do livro “Meio Ambiente
no Século 21” é uma das organizações
mais ativas na produção de diagnósticos e na formulação
de propostas em defesa da biodiversidade. Nessa mesma direção
gosto muito das ações do SOS Mata Atlântica (em particular
do projeto “Florestas do Futuro” e do fomento à multiplicação
de RPPNs – Reservas Particulares do Patrimônio Natural), do
Greenpeace ( o relatório divulgado ano passado sobre o percurso
que a soja faz da Amazônia até a Europa foi muitíssimo
bem estruturado e alcançou ampla repercussão) do Instituto
Vitae Civilis (pela capacidade de articulação e mobilização
em nível nacional na bem sucedida campanha “Cidades Solares”),
do WWF ( pela mobilização em favor dos recursos hídricos
e contribuição para o aparecimento de novas reservas ambientais)
e de muitas outras experiências que ocorrem em maior ou menor escala
no Brasil. Acho importante citar também a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), que escolheu como tema da Campanha da Fraternidade
em 2007 a Amazônia, três anos depois de ter mobilizado onze
mil paróquias em todo o país para refletir sobre sobre a
questão da água em uma outra campanha inspirada num tema
ambiental.
Mesmo depois de terem sido duramente criticadas, as ONGs ambientais
fazem parte do processo de desenvolvimento sustentável brasileiro? Qual
a sua importância? Diversos projetos implementados por ONGs podem
ser considerados exemplares?
Como tudo na vida, tem ONG que presta e ONG que não presta. Para
mim, as organizações governamentais que fazem a diferença
são aquelas que conseguem denunciar com responsabilidade o que está errado
e formular propostas consistentes e viáveis para que se descubra
o jeito certo – ou menos errado - de fazer as coisas. Nesta área
ambiental, e isso vale para ONG como vale para qualquer pessoa física
ou jurídica, é preciso incomodar. São muitos os interesses
mesquinhos consolidados na complexa máquina governamental, atrofiando
as iniciativas realmente importantes. O fato é que os governos são
passageiros, as políticas e diretrizes anunciadas com pompa e circunstância
nem sempre duram ou conseguem atender aos interesses legítimos da
sociedade. Os governantes precisam ser fiscalizados e municiados de informações
relevantes para a tomada de decisão. Entendo que não há democracia
sem ONG. E nos últimos anos, principalmente na área ambiental,
não há formulação de políticas públicas
efetivas sem a preciosa colaboração de “ongueiros” recrutados
pelo governo para as repartições públicas em Brasília
ou nos gabinetes estaduais e municipais. Quis o destino que aqueles que
mais se destacam nas ONGs sejam muitas vezes cobiçados pelos governantes.
Considero isso um avanço, porque os governos nem sempre dispõem
dos quadros mais capacitados para as novas demandas que se revelam no dia-a-dia. É preciso
apenas evitar a desastrosa mistura com o caldo de inoperância, letargia
e morosidade que contamina as estruturas governamentais, com honrosas exceções.
No campo da mídia, principalmente a televisiva, percebe-se uma
evidente evolução na abertura de espaços para a divulgação
dos temas ambientais. O que motivou os executivos das emissoras?
O bom jornalismo poderia ser entendido como aquele que acompanha a evolução
dos fatos sem perder de vista o contexto em que eles se resolvem. Na mídia
eletrônica, principalmente, não há muito tempo para
a “contextualização”. A prioridade é a
transmissão dos fatos numa velocidade cada vez maior, o que muita
vezes confunde quem consome notícia. Num mundo que experimenta uma
crise ambiental sem precedentes, tornou-se imprescindível abrir
espaço para falar de aquecimento global, escassez de recursos hídricos,
desertificação do solo, produção monumental
de lixo, destruição da biodiversidade, transgênicos,
rejeitos nucleares, e outros assuntos que demandam alguma explicação
adicional para que sejam devidamente compreendidos. A instantaneidade do
jornalismo, o competitivo mercado do “on line”, não
pode comprometer a contextualização dos fatos em que os assuntos
ambientais se resolvem.
Como falar de degelo das calotas sem mencionar o fenômeno do aquecimento
global e a responsabilidade da humanidade sobre isso tudo? Nesse processo,
vai ganhando espaço e prestígio no meio jornalístico
o que pensadores como Edgar Morin e Fritjof Capra chamam de visão
sistêmica. Vivemos num universo composto por fenômenos interligados
que são interdependentes e interagem o tempo todo. Só é possível
perceber essa realidade quando enxergamos sistemicamente. Há um
longo caminho pela frente, mas estamos melhores hoje do que já estivemos
há bem pouco tempo atrás.
Na mídia impressa de grande circulação, hoje já há uma
relativa consciência, principalmente quanto a mudanças climáticas,
desflorestamento e recursos hídricos. Acredita que essa cobertura
sensibiliza as pessoas com poder de decisão como para implementar
uma política de desenvolvimento nacional que considere todos esses
fatores?
Acredito piamente no poder da mídia, para o bem ou para o mal.
Não sei exatamente em que nível isso acontece, mas acontece.
Certa vez, um empresário do Espírito Santo com quem eu nunca
tinha falado antes ligou para a redação da Globo News perguntando-me
se a tecnologia empregada para o tratamento de esgoto com geração
de biogás, exibida numa reportagem assinada por mim, funcionava
de fato. Disse que sim e ele me pediu os contatos de quem realizava aquele
projeto.
Explicou apenas que desejava saber mais informações sobre
o que viu na tevê. Seis meses depois recebi um telefonema do responsável
pelo projeto. Ele estava em Alto Caxixe, a 100 km de Vitória, e
fez questão de me informar que foi por causa da reportagem que ele
estava ali prestes a entregar para uma comunidade de baixa renda uma estação
de tratamento de esgoto com produção de biogás financiada
pelo tal empresário. Fiquei muito feliz em saber disso. Recentemente,
exibimos no “Cidades e Soluções” um programa
sobre uso de água da chuva com exemplos do Rio de Janeiro, Curitiba
e Crato (CE). Uma semana depois da exibição do programa,
fui informado que a administração da Rodoviária Novo
Rio havia encomendado um projeto para a instalação de um
sistema inteligente de coleta, armazenamento e uso de água de chuva
por causa justamente do programa. Essas histórias se repetem e sugerem
um enorme cuidado em relação aos assuntos que damos visibilidade,
e como fazemos isso. Tem muita gente vendo e replicando as experiências.
De que forma a Internet influi na pauta dos veículos para
a cobertura ambiental?
Existe uma enorme variedade de sites de notícias ambientais ou
boletins especializados produzidos por ONGs, empresas, governos e até cidadãos
comuns que se aventuram nessa área da divulgação de
assuntos socioambientais. A oferta é grande e há produtos
de excelente qualidade. A questão fundamental é a credibilidade
da fonte, mas isso não chega a ser um problema caso haja um mínimo
de cuidado na gestão da notícia e a disposição
de checar a informação. Entendo que a internet é hoje
uma ferramenta indispensável para que façamos um jornalismo
de qualidade. Mas nada substitui o trabalho de reportagem in loco, na rua,
no contato direto com as pessoas e situações. As novas gerações
de jornalistas precisam vencer a preguiça de enxergar o mundo pela
telinha do computador. O grande prazer desta profissão é contar
histórias interessantes na condição de testemunhas.
Precisamos sentir o cheiro da notícia e a internet não tem
cheiro.
E a mídia alternativa especializada? Ela existe? Qual o
seu papel?
Existe sim e a tendência é que esse movimento cresça. É na
chamada mídia especializada que encontramos uma abordagem mais cuidadosa,
um espaço mais generoso, uma linha editorial mais comprometida com
os assuntos que consideramos importantes. Mas entendo que a segmentação
da mídia não deve avalizar a elitização da
notícia. A preocupação com a clareza e a objetividade,
com a tradução do jargão científico, com a
universalização dos conceitos usados para explicar essa crise
ambiental sem precedentes em que estamos mergulhados devem inspirar todos
os que se propõe a escrever ou falar sobre esses assuntos. O jornalista
que não consegue se comunicar com clareza para o maior número
possível de pessoas não cumpre a sua função
social.
O programa Cidades e Soluções, que se exibe na TV
a cabo, pode ser considerado alternativo ou de massa?
O que mostramos no programa são práticas e experiências
bem consolidadas e que merecem ser chamadas de soluções.
Coletores solares, hortas urbanas, uso de água de chuva, asfalto
ecológico, neutralização de carbono, reciclagem de
casca de coco verde, licitações sustentáveis, são
assuntos que tem despertado muito interesse dos telespectadores. Há uma
enorme demanda de informação sobre o que está dando
certo, quem está fazendo a diferença em favor de um mundo
melhor e mais justo, um mundo sustentável.
Sinceramente, não me sinto confortável no rótulo do “alternativo”.
Isso me lembra dos que falam de “energia alternativa” ou “medicina
alternativa” como algo exótico, extraordinário, não
convencional. Mostramos o que já é realidade, dá certo
e pode ser replicado. O fato de estarmos na TV a cabo torna o produto acessível
apenas a quem pague por ele, ou cometa a ilegalidade de roubar o sinal
via “gato Net”. A Globo News é assistida por formadores
de opinião, políticos e empresários. Coleciono mensagens
de pessoas e empresas que pedem mais informações sobre os
projetos com o objetivo de levar adiante essas iniciativas, e isso tem
deixado toda a equipe do programa muito feliz.
“Cidades e Soluções” é o pioneiro na
imprensa em compensar as emissões de carbono que gera na sua produção.
Esta iniciativa deveria ser um modelo a ser seguido não somente
pelos outros veículos como por toda a cadeia produtiva, tanto na
indústria quanto na agricultura e pecuária e, claro, de forma
individual por proprietários de automóveis e pelas pessoas,
mesmo que usem um transporte coletivo para se locomoverem. Acredita
nessa replicabilidade?
Ela já está acontecendo. Compensar as emissões de
gases estufa com o plantio de árvores não resolve o problema
do aquecimento global, mas ajuda. Gostei muito de saber que uma rede de
supermercados na Grã-Bretanha decidiu informar no rótulo
de seus 70 mil produtos o quanto cada um deles emitiu de gases estufa na
atmosfera. Daqui a algum tempo, tão importante quantos as informações
de praxe como preço e composição do produto, os rótulos
terão de informar também o quanto de carbono foi emitido.
Isso é uma pequena revolução nos hábitos de
consumo. Não é possível imaginar um mundo com menos
carbono sem que consumidores e eleitores se manifestem e façam as
escolhas certas. Para isso é preciso informação e
ela começa a ganhar escala.
Mais e mais pessoas estão acordando para o fato de que o planeta
está mudando e que nós ficaremos em apuros se não
nos corrigirmos. As 680 árvores que plantaremos neste ano de 2007
para neutralizar as emissões de gases estufa do “Cidades e
Soluções” crescerão nas margens do Rio Ipiranga,
no Jardim Botânico de São Paulo, assegurando a recomposição
das matas ciliares onde já não existe água. Em breve
estaremos neutralizando também o programa “Mundo Sustentável”,
que vai ao ar na Rádio CBN.
Um exemplo de educação ambiental em massa é o filme
de Al Gore. Uma verdade inconveniente fez mais pelo meio ambiente do que
inúmeros, estudos, relatórios e informes científicos.
Aqui não teve a repercussão que merecia, mas atingiu a elite
empresarial, o que já é um começo. Não seria
um caminho para o Brasil?
Tenho conversado muito ultimamente com professores de escolas públicas
e particulares. Entendo que o grande passo na direção de
uma educação ambiental de qualidade passa pelo treinamento
do corpo docente. É preciso descobrir as estratégias mais
eficientes de educar, mobilizar e gerar novas atitudes. Os conteúdos
escolares precisam abrir espaço para discutir a sustentabilidade
no dia-a-dia. E isso começa pelo professor. Eu diria até pelo
exemplo do professor. Não importa tanto o que ele diz, mas o que
ele faz. Documentários como Uma verdade inconveniente aceleram o
processo de aprendizagem e, pode-se dizer, elimina etapas que poderiam
demandar mais tempo em sala de aula. Nesse sentido, é uma excelente
ferramenta para sensibilizar a conscientizar tanto alunos como professores.
Mas como preparar os alunos antes da exibição do filme? Que
atividades serão realizadas depois? Haverá algum dever de
casa especial? É aí que entra o professor determinando diretamente
o nível de sucesso dessa experiência.
Estamos às vésperas da realização dos Jogos
Pan-americanos, no Rio de Janeiro. Teria sido uma belíssima oportunidade
para implementar um projeto sustentável com energia solar e eólica,
alimentação orgânica, coleta seletiva e reciclagem
dos resíduos, biodigestores anaeróbicos em vez de rede de
esgoto, transporte limpo, etc., tais como nas Olimpíadas (principalmente
a partir de Atenas), na Copa do Mundo (a partir da Alemanha) e no próximo
ano na Fórmula 1; já no campo político é bom
lembrar a realização da última convenção
do Partido Democrata dos EUA. Podemos pensar que o Ministério do
Esporte, o Governo do Estado do Rio e a Prefeitura do Rio estão
completamente alheios a este tipo de visão que hoje é uma
regra fundamental no campo dos esportes?
Estive em Sidney nos Jogos Olímpicos de 2000, os primeiros Jogos
Verdes da História. Vi o parque olímpico inteiro abastecido
com energia solar, bem como a vila olímpica. Também estive
na Alemanha, no ano passado, na primeira Copa Verde. Os alemães
neutralizaram totalmente as emissões de gases estufa do evento,
e reduziram em 20% o consumo de energia e de água, bem como a produção
de lixo. É inacreditável – para não dizer absurdo – que
justamente na cidade da RIO’92, tenhamos desperdiçado a chance
de tornar os Jogos Panamericanos um evento sustentável. Difícil
imaginar que não sabiam como fazer. Pôr a culpa nos custos
adicionais que eventualmente incorressem no projeto seria menosprezar a
inteligência de quem poderia captar recursos junto a empresas privadas
que financiariam os ajustes necessários em troca de uma justa exposição
de imagem. Ao que parece, houve até quem sugerisse mudanças
no projeto do Pan, mas ficou nisso. Paciência. Quem sabe, numa próxima
Copa do Mundo, se ela for realizada no Brasil?
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