| Diálogos
de Ecologia e Budismo
palestra proferida em 14/10/2007, no Centro de Estudos Budistas
Bodisatva (CEBB), de Viamão, RS
Budismo dialoga com Ecologia
Um show musical de três horas marcou o início do II
Encontro Diálogos de Ecologia e Budismo, que aconteceu no
Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), de Viamão, RS,
entre os dias 11 e 14 de outubro. O templo foi transformado em sala
de espetáculos. No palco, um imenso pôster do Buda
Sakiamuni reinava absoluto. Outras imagens budistas e panôs
indianos compunham a decoração do espaço, cujo
“clima” de aconchego e alegria foi conseguido com os
tons quentes dos efeitos da iluminação especial. Reconhecidos
artistas gaúchos como Giba Giba, Adriana Deffenti, Ângelo
Primon, Dimitri Cervo e a Camerata Brasileira, apresentaram-se para
mais de cem pessoas. O grupo de praticantes budistas Mandala do
Lótus também tocou, tendo os músicos Daniel
Alves e Márcio Resende como convidados. Nos dias seguintes,
o evento mesclou palestras, discussões em grupo e apresentações
artísticas.
Na mesma semana, entre os dias 10 e 12 de outubro, Porto Alegre
sediou o II Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, evento
realizado pelo Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS), que
teve como tema “Aquecimento Global: Um Desafio para a Mídia”.
Cerca de 400 profissionais, estudantes, pesquisadores e ambientalistas
reuniram-se no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), nos três dias do encontro. Entre os
palestrantes, houve convidados da Inglaterra, do México,
do Panamá, de Cuba e do Uruguai. Dezessete estados brasileiros
também estiveram representados entre participantes e oradores.
Um dos painelistas do Congresso, o jornalista André Trigueiro,
esteve no Caminho do Meio. Ele, que foi o criador e é professor
do curso de Jornalismo Ambiental da PUC RJ, é também
ambientalista e apresentador da Globo News. No encontro de Ecologia
e Budismo, André participou de uma mesa redonda de Reflexões
sobre a Questão Ecológica, no dia 13, ao lado dos
filósofos Celso Marques e Carlos Naconecy, da professora
Clítia Martins, do engenheiro agrônomo João
Batista Volkmann e do lama Padma Samten. A seguir, um resumo das
falas do lama no encontro e a transcrição da palestra
de André Trigueiro.
Meio ambiente: o sagrado entre nós
Há 15 anos e quatro meses, quando nem se falava em ONG no
Brasil, eu era repórter de rádio e tive o privilégio
de cobrir o evento paralelo à Rio 92, o Fórum Global
das ONGs. Foi então que testemunhei o desembarque de Sua
Santidade, o Dalai Lama, no encontro de lideranças religiosas
que estavam ali confirmando o comprometimento das religiões,
das tradições místicas, com a questão
ambiental. Este evento ficou marcado na minha memória. No
ano passado, surgiu a oportunidade de entrevistar Sua Santidade,
em São Paulo. Eu me preparei para isso, acessando o site
oficial dele, onde reparei que havia um link específico,
apenas sobre sustentabilidade, com aproximadamente 20 textos assinados
pelo Dalai Lama nos quais ele ratifica este compromisso.
Nesses 15 anos, nós vimos o Papa João Paulo II, mais
de uma vez e, mais recentemente, Bento XVI, também afirmarem
esse compromisso do catolicismo com o que se poderia convencionar
chamar de “teologia ambiental”, que tem o compromisso
de resgatar o sagrado em tudo o que existe. A partir deste olhar,
não se deveria usar termos como “seres viventes”
e “recursos naturais”, nomenclatura utilizada pela economia
e reproduzida na mídia, segundo a qual o que existe na natureza
tem valor quando é “recurso”. Assim, transformam-se
as obras da criação, que têm valor simplesmente
por existir, em recursos porque podem ser processadas, têm
serventia ou utilidade para nós.
Aqui no Brasil, o teólogo da libertação, Leonardo
Boff, destaca-se nesta proposta de unir espiritualidade e meio ambiente.
No discurso de Boff está muito presente algo que me toca
profundamente que é o fato de valorizarmos a biodiversidade
como algo importante para o equilíbrio dos sistemas, ou seja,
a diversidade tem valor intrínseco e tudo o que existe tem
uma função e, ainda que não saibamos exatamente
qual seja, ela empresta equilíbrio ao todo. Isso é
algo que nos escapa muito facilmente na academia, na gestão
pública, na iniciativa privada e na abordagem da mídia.
Estamos na era dos recursos, em que tratamos a natureza, o meio
ambiente, como um grande supermercado, do qual retiramos das prateleiras
aquilo que nos interessa sem a preocupação de entender
como isso funciona verdadeiramente.
A meu ver, essa dualidade é o grande desafio que está
colocado tanto para os educadores, quanto para as religiões,
particularmente o judaísmo e o cristianismo. No Velho Testamento,
na parte do Gênese, há um parágrafo que diz:
“Crescei e multiplicai-vos”. Esses dois verbos afirmam
a soberania do homem, feito à imagem e semelhança
de Deus, sobre a natureza. Para alguns teólogos, encontra-se
aí a base de sustentação para uma hierarquia,
ou seja: “eu não sou o dono do mundo, mas sou o filho
do dono”.
Então, em nome desta filiação o homem pode
ordenar, subjugar, submeter. Ele está em um nível
acima e isso pode estar por trás de determinados processos
rigorosamente não-sustentáveis de desenvolvimento.
Segundo esses teólogos, este modelo suicida no qual nos encontramos,
que exaure, em uma velocidade espantosa e sem precedentes, os recursos
naturais e fundamentais da vida encontram lastro em trechos como
esse do Antigo Testamento.
Vejo muitos educadores com dificuldade de esvaziar a alteridade
“nós e a natureza”, “nós e o meio
ambiente”. É a dificuldade que tem o ser humano de
se sentir como uma totalidade orgânica e integrada.
Atualmente, alguns físicos descrevem o universo como um
conjunto de fenômenos interligados e interdependentes que
interagem o tempo todo. Então, estamos todos mergulhados
nessa teia da vida. Enxergar a realidade desta maneira implica na
utilização da visão sistêmica como ferramenta
e nós temos uma enorme dificuldade de enxergar sistemicamente,
porque somos essencialmente fragmentados.
O jornalismo, por vício de origem, é fragmentado
e fragmenta a realidade a cada edição de um jornal
impresso, de um telejornal, um radiojornal ou de um noticiário
virtual na internet. O que estamos fazendo? Estamos arbitrando o
que é interessante hoje. É como brincar de “lego”.
Vamos montando as pecinhas e dizendo: “Isso foi o mundo hoje”.
Quem disse? “Isso é o que é interessante hoje.”
Quem disse?
Essa dualidade homem/natureza foi confirmada por quatro pesquisas
do IBOPE, coordenadas pela professora Samira Crespo, do Instituto
Superior de Estudos das Religiões, que levantaram o que o
brasileiro pensa sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável.
Foram estudos caríssimos, que ouviram dois mil entrevistados
no Brasil inteiro. Uma amostragem representativa de toda a pirâmide
social.
Quando perguntados: “O que é meio ambiente para você?”,
a maior parte de nós, brasileiros, estica o dedinho e responde:
“O meio ambiente é a Amazônia, é o Pantanal,
é o peixe-boi, é o mico-leão dourado. É
o céu azul, as aves do céu.” Nós não
nos incluímos na resposta. Isso é gravíssimo,
porque compartimenta o meio ambiente como outra pecinha do lego
que não nos inclui e é claro que não aferimos,
em princípio, valor a algo que não nos inclui.
O meio ambiente começa no nosso meio e é urgente
que resgatemos este sentido, principalmente com as crianças,
porque depois, mais tarde, fica difícil discutir a visão
sistêmica porque o “software” já tem a
programação compartimentada. Esse conceito dos sistemas
e dos ciclos funciona melhor na infância. Como fazer isso?
A palavra “homem” vem do latim, “humus”,
que significa “terra”. Nós somos feitos de terra.
Para a religião espírita e para outras que também
acreditam na pluralidade dos mundos habitados, os seres que constituem
cada reino da criação, cada planeta, são feitos
dos mesmos elementos que constituem o planeta. Assim, nós,
da Terra, somos homens, húmus. Somos feitos de terra. Somos
feitos de poeira cósmica, de pó de estrela, de partículas
datadas de bilhões de anos, que se arrumam e se desarrumam
com o passar do tempo. Aglutinam-se e desmancham-se.
A expressão “do pó viestes, ao pó voltareis”
não é uma retórica bíblica sem sentido.
Tanto é verdade que quando fazemos um exame de sangue para
ver o estado geral do nosso corpo, uma das informações
mais importantes que o laboratório nos dá é
justamente a quantidade de minério que jaz nas profundezas
do solo e que nós transportamos nas veias: ferro, zinco,
potássio, manganês, sódio. Se nós tivermos
um déficit mineral no corpo, estamos mais suscetíveis
a diversos males e doenças. É possível que
já tenhamos ouvido do médico uma bronca do tipo: “Vai
pra farmácia agora tomar ferro!” No bom sentido, claro.
Porque sem ferro não dá, a pessoa não rende.
Parafraseando Cristo, não tem “vida em plenitude”,
não tem saúde, não tem disposição.
Você não trabalha bem, não dorme bem, não
namora bem.
Nós somos feitos de terra e também somos feitos de
água. Caprichosamente, na mesma proporção em
que a água se resolve na superfície do planeta. A
vida tem origem na água e nós, através de complexos
processos evolutivos, migramos das águas dos oceanos para
os continentes, mas a água continua sendo um elemento fundamental
à saúde. O mesmo médico que cobra o exame de
sangue, provavelmente deve recomendar: “você deve ingerir
de dois a três litros de água potável por dia”.
Para quê? Para que o seu sistema, seu ecossistema funcione
bem. Para irrigar a pele, o cabelo, os órgãos e as
glândulas. Para que o nosso ciclo vital funcione adequadamente,
precisamos de água.
Nós vertemos lágrimas, de alegria ou de tristeza,
que têm o sabor dos oceanos. Na literatura médica há
registros interessantes, como o de uma pessoa que estava se esvaindo
em sangue e não havia como promover uma transfusão
no tempo certo. Era preciso estancar a sangria e repor sangue rapidamente.
Como não havia sangue por perto, injetaram água de
coco nas veias da pessoa. Não estou dizendo para ninguém
fazer isso, claro, mas funcionou e entrou para os anais da medicina.
A água de coco é um isotônico muito melhor do
que muitos que existem por aí, artificiais; um elemento muito
afim, muito comum conosco. Nós, portanto somos feitos de
terra, somos feitos de água, e somos feitos de ar.
A tradição mística da Índia nos ensina
a importância da energia presente no ar: o “prana”,
quer dizer, uma energia fundamental vitalizante, o grande elemento,
o grande nutriente que capturamos através do ato da respiração
e que nos assegura, igualmente, a condição de viver.
No Ocidente, para as pessoas se acalmarem, dão água
com açúcar. Já no Oriente, respira-se fundo.
Nós não sabemos respirar. Eles sabem. As técnicas
milenares de meditação e yoga têm na respiração
as bases para o alinhamento dos chakras. Ao meditar e respirar bem
consegue-se obter lucidez, clareza mental e redução
do batimento cardíaco, entre muitos outros benefícios.
A energia vai se apoderando, se avolumando dentro de nós,
tendo a respiração como eixo.
A pessoa consegue suportar vários dias sem comer. Ela fica
fraquinha, mas não morre. Também pode ficar um número
menor de dias sem ingerir líquidos. Ela se desidrata, mas
não morre. Mas quanto tempo o ser humano pode agüentar
sem respirar? O ar é fundamental; é o grande nutriente.
Portanto, como é possível quebrar a alteridade, a
dualidade? Nós temos que dar estes exemplos, porque, o que
está dentro, está fora. Se o ar está poluído,
se a água está contaminada, se o solo é estéril,
se há desertificação, se os nutrientes do solo
estão se exaurindo, eu pereço. Eu vou sucumbir. Não
está fora. O que está fora está dentro também.
De todos os desastres ecológicos, o que mais me preocupa
é aquele que não costuma ser associado ao desastre
ambiental: o suicídio. Se somos parte do meio ambiente, é
claro que os indicadores de suicídio deveriam ser entendidos
como um problema a ser enfrentado sistemicamente. O ambiente pode
gerar ondas de conforto ou de desconforto, agonia e sofrimento,
em que a pessoa, num dado momento, não consegue enxergar
luz no fim do túnel.
Há três semanas, a Organização Mundial
da Saúde divulgou um relatório informando que, aproximadamente,
três mil seres humanos estão se matando por dia no
planeta. São números conservadores porque há
o problema da subnotificação. Normalmente, não
queremos que apareça no atestado de óbito que a causa
da morte foi suicídio, então damos um jeitinho. No
Brasil, isso é fácil. Entretanto, mesmo aqui, suicídio
é caso de saúde pública e o Rio Grande do Sul
lidera as estatísticas.
Então, é um desafio resgatar o sagrado que está
presente na natureza e em nós. Não por acaso, nenhuma
religião entende o suicídio como solução.
Segundo as leis de Deus, judeus não enterram suicidas em
solo sagrado. Os católicos não aplicam o último
sacramento. Enfim, temos problemas na hora de falar sobre o tema,
que é um assunto ambiental.
Em que medida nosso estilo de vida determina “pegadas ecológicas”
cada vez mais profundas? Ou seja, quantos hectares do planeta estamos
usando para viver? Que impacto o nosso estilo de vida tem sobre
o planeta? Este é o exercício da pegada ecológica
(www.earthday.net/footprint), que é uma metodologia, um questionário,
em que o entrevistado responde se anda de carro, de avião,
se come carne, qual o tamanho da casa onde mora, etc. Ao responder
aquilo tudo, o programa determina a área do planeta que existe
exclusivamente para suprir suas demandas de matéria-prima,
energia e água.
Eu não tenho muitos elementos à mão para afirmar
que a mídia esteja sensível a isso. O jornalista não
tem a dimensão emocional da notícia. Ele pode ser
perfeito do ponto de vista dos conteúdos racionalmente entendidos
como importantes, mas qual foi o resultado do jornal, depois do
“boa noite”? Qual é a sensação
que fica no telespectador? Esses elementos subjetivos, emocionais
não são levados em consideração pelos
jornalistas. Nós não temos essa formação.
Como eu posso informar, sem esvaziar as perspectivas de esperança
e de solução? Como posso resistir à tentação
de achar que apenas a má notícia, a notícia
que remete à tragédia, ao desastre, é a que
me dá audiência, me dá a atenção
que eu preciso ter? Como eu posso trabalhar certos conteúdos
na mídia que não remetem ao caos, mas que podem ser
tão ou mais atrativos para o público?
No programa “Cidades e Soluções”, exibido
no Canal Futura, da Globo News, mostramos boas práticas,
boas experiências. O que já está consolidado
no plano do concreto como resultado. Fiquei feliz porque falamos
muito sobre isso no II Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental.
Dizer o que está errado, fazer o diagnóstico, é
função da imprensa, sempre. Mas também é
importante mostrar os resultados.
Eu sempre digo para os meus alunos, a imprensa tem duas asas: uma
é a denúncia, a outra, é apontar as perspectivas,
as soluções. Se possível, a cada problema grave,
que causa tensão, devemos mostrar a solução.
É muito comum vermos pessoas que já não agüentam
ler o jornal todo o dia, que estão “zapiando”
a televisão, param no telejornal, vêem uma notícia
ruim e mudam imediatamente de canal. Por quê? Por que nós
temos auto-estima, um instinto de sobrevivência. Há
algo em nós que resiste a essa sensação de
ir afundando, de ir perdendo o contato com a luz.
A gente quer luz, quer acreditar nas coisas que dão certo,
quer saber o que funciona. Nós, profissionais de mídia,
estamos precisando nos reciclar. Precisando acordar, para a urgência
de uma nova atitude enquanto jornalistas, abrindo espaço
na mídia para um planeta em transformação.
Essa transformação ocorre hoje. Existem muitos heróis
anônimos por aí, que realizam um trabalho fundamental
na construção de um novo mundo.
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