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O que o Espiritismo e a Ecologia têm em comum? O leitor se surpreenderá com as muitas afinidades existentes entre essas duas áreas do conhecimento que surgiram na mesma região do planeta há aproximadamente 150 anos, e que hoje despertam interesse e curiosidade crescentes. Espíritas e ecologistas utilizam a visão sistêmica para defender a biodiversidade, o uso sustentável dos recursos naturais, o consumo consciente, a primazia dos projetos coletivos em detrimento do individualismo. São tantas afinidades, que certas obras espíritas poderiam perfeitamente embasar alguns postulados ecológicos.

 

Español: Espiritismo y Ecologia

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Capítulos

•  O Espiritismo em frases de efeito
•  Sinais de alerta
•  Espiritismo e Ecologia
•  No fervilhar do século XIX
•  Kardec e Haeckel
•  A ciência espírita
•  A ciência ecológica
•  Construindo pontes de afinidade
•  O planeta está dentro de nós
•  Em busca da sustentabilidade
•  Senso de urgência
•  Lei de Destruição
•  Poluição e Psicosfera
•  Consumo consciente
•  Mídia, Criança e futuro
•  O consumo segundo o Espiritismo
•  Sustentabilidade como valor espiritual
•  Um planeta vivo?
•  Uma nova chance para o amor universal
•  Enquanto isso, nos centros espíritas
•  Um pequeno dicionário ambiental

 

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Resenha

Por Manoel Fernandes Neto, 47 anos, jornalista, expositor e pesquisador espírita, editor da revista www.novae.inf.br e do portal www.se-novaera.org.br.

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O que o Espiritismo tem a ver com a Ecologia? O que a Ecologia tem a ver com o Espiritismo? Estas duas perguntas estão no âmago do livro “Espiritismo e Ecologia”, do jornalista André Trigueiro, editado pela Federação Espírita Brasileira. A obra, acima de qualquer outra análise, harmoniza as duas ciências e a responsabilidade de cada um de nós como Seres Integrais, Espíritos Imortais, responsáveis pelo Planeta em que vivemos, também parte de nossa trajetória de progresso.

 

“Espiritismo e Ecologia são ciências afins, sinérgicas, e que sugerem abordagens sistêmicas da realidade, as quais ainda não foram devidamente compreendidas ou aceitas.”, avisa logo no início da obra o autor, um dos mais respeitáveis pesquisadores no Brasil do tema meio ambiente, autor também de outra obra referência da área: “Meio ambiente no século 21” (Editora Sextante, 2003).

 

Para fundamentar este conceito, Trigueiro não economiza na análise pormenorizada de aspectos doutrinários, dos quais demonstra vasto conhecimento como estudioso espírita há mais de duas décadas. Esta apreciação do autor perpassa, de forma competente, pela derrubada de certos chavões que ouvimos nas casas espíritas, que o autor classifica amorosamente como “frases de efeito”, que tentam justificar a não adoção de forma mais corriqueira do tema Ecologia em palestras e grupos de estudo.

 

Termos como “O acaso não existe”, “A verdadeira vida é a vida espiritual”, “Eu estou aqui de passagem” são desmontados pelo autor, como um relojoeiro que examina com uma lupa engrenagens que necessitam de depuração para funcionar melhor. “Se deixamos um legado material e espiritual no Planeta – onde poderemos eventualmente reencarnar –, é evidente que, mesmo de passagem, devemos nos preocupar com nossos rastros. Pela lei de causa e efeito, o eventual desperdício ou uso irresponsável dos recursos naturais terá implicações em nosso processo evolutivo”, diz o autor.

 

Nessa trilha de esclarecimento e honestidade intelectual em relação ao tema Ecologia, André Trigueiro leva na bagagem a mesma fé inabalável adotada pelo Codificador da Doutrina, Allan Kardec, que enalteceu o contraditório da ciência acima de qualquer conceito doutrinário, com o objetivo, segundo o autor, de

 

(…) atualização do conhecimento e a devida contextualização dos conteúdos doutrinários, a fim de que o Espiritismo se apresente sempre útil para a compreensão da realidade que nos cerca.

 

O conhecimento destas duas áreas cada vez mais em destaque no dia atual – a espiritual e a ecológica – dá ao livro de André Trigueiro o status de divisor de águas. De um lado, reafirma, dentro das casas espíritas, com o selo da FEB, a importância de olharmos ao nosso redor para os problemas da atualidade, e em que aspecto o Espiritismo pode colaborar com a sociedade. De outro a lado, faz ressurgir o tipo de intelectual do naipe de Herculano Pires, Hermínio Miranda, Deolindo Amorim, entre outros, que não temem assumir, na sociedade global, sua condição de pensador Espírita, não em seu aspecto devoto, mas com as características necessárias de um saber robusto, com coragem de reafirmar a doutrina como ciência.

 

E com esses atributos, Trigueiro não se furta em comparar Allan Kardec com outro contemporâneo do mestre francês, Ernst Heinrich Haekel, respeitado naturalista criador do tema Ecologia (oecologie), que significa, literalmente, estudo da casa. “A preocupação de utilizar o método científico como base de sustentação para suas teses e princípios unia Kardec e Haeckel. Pode-se dizer, portanto, que tanto um como outro pensou e agiu como cientista”, afirma o autor.

 

Gaia, padres rabinos e ialorixás
O livro não economiza em referências e pesquisas bibliográficas. Espíritas e não espíritas criam um elo de pensamento único e pujante. Além de Allan Kardec e toda a Codificação, Chico Xavier, Divaldo Franco, Hernani Santana, Jorge Andréa, Wladymyr Sanches, e os desencarnados Emmanuel, André Luiz, Áureo e Joana de Ângelis convivem harmonicamente com nomes de pesquisadores da ciência ecológica, como Jareed Diamond, John Elkington, Fabio Feldmann, James Lovelock.

 

O resultado é surpreendente pela abrangência e conexão entre as duas áreas. Desta forma, o leitor descobre o que existe em comum entre poluição e psicosfera, Gaia e espíritos da natureza; ou como a Terra está dentro de cada um de nós; ou, ainda, como o consumismo atual foi alertado por lições do Livro dos Espíritos sobre a capacidade de sustento da Terra; ou mesmo a necessidade de respeito aos animais, “nossos irmãos em evolução”, nas palavras de Trigueiro.

 

Aliás, a Lei da Destruição, contida nas Leis Morais da Doutrina Espírita, merece um capítulo à parte. Nele, o autor ilumina de forma competente ensinamentos que podem ser confundidos, aos menos avisados, com passividade em relação a degradação do Planeta:

 

Importa reconhecer o gênero de destruição sobre o qual estamos falando. Um, de origem natural, conspira a favor da manutenção da vida; o outro, de origem antrópica, determina impactos negativos sobre os ciclos da natureza, precipitando cenários de desconforto ambiental crescente.

 

Outro caráter que confere universalidade ao livro “Espiritismo e Ecologia” é sua abrangência ecumênica, valorizando o que fazem e dizem em relação à Ecologia outras correntes religiosas e filosóficas, naquilo que André Trigueiro conceitua como a “Espiritualidade como Valor Universal”. Assim, surgem com destaque, entre outros, o registro de como a Igreja Católica incorpora a consciência ambiental na sua anual Campanha da Fraternidade; ou as reflexões sobre sustentabilidade, de Leonardo Boff, segundo trigueiro “o mais espírita dos católicos”; ou mesmo conceitos do Dalai Lama e do rabino Nilton Bonder, sobre novas atitudes em relação ao Planeta.

 

Uma citação de Gilberto Gil, trazida por Trigueiro ao livro,  ilustra bem essa diversidade, ao demonstrar que a natureza, também para as religiões africanas, é algo sagrado, confirmando a necessidade deste diálogo espiritual ecológico e sustentável em que toda a Humanidade poderá usufruir os resultados: “ (…) em todas as suas práticas rituais e litúrgicas, essas religiões dependem do mundo natural, dependem dos animais e das plantas. Daí a frase, hoje famosa, dita por uma ialorixá da Bahia: ‘Sem folha, não há orixás’ ”.

 

O livro traz, ainda, um pequeno dicionário ambiental e reflexões de como tornar uma casa espírita sustentável em seu cotidiano.

 

Ao terminar de ler “Espiritismo e Ecologia”, de André Trigueiro, temos a convicção de que a obra atinge vários objetivos. Um deles, levar os conceitos espíritas para fora das hostes doutrinárias, conversando com um público espiritualista que busca consciência ambiental. Por outro lado, alerta os espíritas de todo o Brasil, dirigentes de sociedades, de que é possível incrementar mais a agenda de sustentabilidade dentro do movimento, em palestras, cursos, seminários, campanhas e atitudes, reafirmando o que Allan Kardec traz em diversas partes de sua a obra: o Espiritismo estará em todas as áreas da sociedade, apontando caminhos para superação de seus desafios e encruzilhadas e colaborando para o progresso dos mundos.

 

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